13/03/2009

Teologia Sistemática capítulo 3 parte A

Assim como a infalibilidade da Bíblia é o fundamento epistemológico da fé cristã, a doutrina de Deus é o fundamento metafísico do qual outras doutrinas bíblicas dependem. Portanto, o cristão deve lutar para alcançar um correto entendimento de Deus. Este capítulo trata da existência, atributos e obras divinos.

A Existência de Deus

A Bíblia diz que o que vem a Deus deve crer que ele existe (Hebreus 11.6). É impossível para alguém que negue a existência de Deus desenvolver um relacionamento com ele ou conscientemente servi-lo [17]. Introduzirei duas categorias de argumentos em favor da existência de Deus. Podemos chamar os de primeiro tipo argumentos teístas tradicionais ou clássicos, nos quais vários teólogos e filósofos têm se apoiado para demonstrar a existência dele. Os de segundo tipo consistem de argumentos derivados da própria Escritura, e assim podemos chamá-los de argumentos bíblicos.

O ARGUMENTO ONTOLÓGICO advoga a idéia de Deus pela necessidade de sua existência. Ele é, por definição, o ser além de que nada maior pode ser concebido, e visto que o ser além de que nada maior pode ser concebido não pode deixar de ter a própria propriedade de ser, a existência de Deus é forçosamente necessária.

Sucessor de Lanfranc, Anselmo (1033-1109) tornou-se Arcebispo de Canterbury em 1093. O seu Cur Deus Homo e outras obras exerceram profunda influência no desenvolvimento da teologia cristã. Entretanto, talvez ele seja mais famoso por seu argumento ontológico como articulado em seu Proslogion. [18] O texto que segue o reproduz parcialmente:

"Cremos então que Tu és algo além do que nada maior pode ser imaginado. Ou pode ser que algo de uma tal natureza não exista, visto que “diz o Néscio em seu coração: Não há Deus?” Mas certamente, quando esse mesmo Néscio ouve a respeito do que estou falando, a saber, “algo-além-do-que-nada-maior-pode-ser-imaginado”, ele compreende o que ouve, e o que entende está em sua mente, mesmo que ele não compreenda que na verdade isso exista...

Mesmo o Néscio, então, é obrigado a concordar que algo-além-do-que-nada-maior-pode-ser-imaginado existe na mente, visto que ele entende isso quando o ouve, e tudo o que é compreendido fica na mente. E certamente aquilo-além-do-que-nada-maior-pode-ser-imaginado não pode existir sozinho na mente. Pois se existisse apenas na mente, não poderia se imaginar que exista também na realidade, a qual é maior. Se então aquilo-além-do-que-nada-maior-pode-ser-imaginado existe na mente apenas, esse mesmo aquilo-além-do-que-nada-maiorpode-ser-imaginado é aquilo-além-do-que-algo-maior-pode-ser-imaginado. Mas
tal é obviamente impossível. Portanto não há absolutamente nenhuma dúvida de que algo-além-do-que-nada-maior-ser-imaginado existe tanto na mente quanto na realidade.

E certamente esse ser tão verdadeiramente existe que não se pode imaginar que não haja ele. Pois não há como se pensar em algo que pode ser imaginado como existente e que não exista. Logo, se se pode pensar que aquilo-além-do-que-nada-maior-pode-ser-imaginado não exista, então aquilo-além-do-que-nada-maior-pode-ser-imaginado não é o mesmo que aquilo-além-do-que-algo-maior-pode-ser-imaginado, o que é absurdo. Algo-além-do-que-nada-maior-pode-ser imaginado verdadeiramente existe, então, visto que não pode mesmo se pensar que não exista.

E Tu, Senhor nosso Deus, és esse ser. É tão verdadeiro que Tu existes, Senhor meu Deus, que não se pode mesmo pensar o contrário... Na verdade, tudo o mais, exceto Tu somente, pode ser imaginado como não tendo existência. Tu somente, então, tens a existência mais verdadeira dentre todas as coisas e, portanto, possui a existência no grau máximo; pois tudo o mais não existe tão verdadeiramente, e assim existe em grau menor. Por que então “diz o Néscio em
seu coração: Não há Deus”, quando é tão evidente a qualquer mente racional que Tu, em relação às outras coisas, é o que existe em máximo grau? Por que, de fato, a menos por ser ele estúpido e louco?


...Ninguém, de fato, compreendendo o que Deus é pode pensar que Ele não exista, mesmo se pode dizer tais palavras em seu coração, seja sem um significado ou com algum significado particular. Pois Deus é aquilo-além-do-que-nada-maior-pode-ser-imaginado. Todos o que realmente compreendem isso entendem claramente que esse mesmo ser é de tal existência que não se pode imaginar não haver. Assim, todos os que compreendem que Ele existe de uma tal
maneira não pode imaginá-Lo como não existente." [19]

A primeira reação de muitos é objetar que só porque um ser pode ser concebido na mente ou nela existir não significa que deva também existir na realidade. Pode-se conceber um carro perfeito, mas isso não quer dizer que não haja outro fora de sua mente. Um cavalo voador é concebível, mas isso nada nos diz quanto a existir realmente.

Uma tal objeção trai uma incompreensão do argumento ontológico, o qual não afirma que tudo o que é concebível também tenha existência real, mas que Deus não pode ser concebido senão como alguém que exista; de outro modo, o que é concebido não pode ser Deus. Se uma pessoa concebe em sua mente um ser além do qual nada maior pode ser concebido que não exista, então na verdade ela não está pensando num ser além do qual nada maior pode ser concebido. Visto que o argumento se refere a um ser além do qual nada maior pode ser concebido, e não apenas a qualquer objeto concebível pela mente, a objeção é irrelevante.

Ambigüidade há concernente ao que se quer dizer que algo existe “na realidade”. Podemos concordar que o que existe na mente não necessariamente existe no mundo físico, mas isso é novamente irrelevante para o argumento, pois Deus é incorpóreo; ele não é um ser físico. Ao afirmarmos que uma vez que a idéia de Deus está presente na mente, ele também deve ser compreendido como existente, não dizemos que tem de ser entendido como matéria física.

E assim o conceito mesmo de existência acarreta um problema. Em certo sentido, pode-se
dizer que qualquer coisa existe — até unicórnios, sonhos, e equações matemáticas, ainda que não como objetos físicos. Entretanto, unicórnios não criaram o universo, sonhos não predestinaram alguns homens à salvação e outros para a perdição, e equações matemáticas não se fizeram carne humana para morrer como resgate de muitos.

Alguns teólogos e filósofos sugerem que, talvez, não devêssemos estar perguntando: “Deus existe?” Antes, uma questão mais inteligível é: “O que é Deus?” Mesmo Zeus “existe”, mas apenas na mitologia. O Deus cristão não é um objeto físico, porém, também não é semelhante a sonhos, equações, ou Zeus. Antes, é ele o criador e o regente do universo, que decreta nossa história e decide nosso destino, e que merece e exige nosso culto. Não é um problema dizer que Deus existe conquanto que isso represente uma afirmação de tudo o que a Bíblia diz sobre ele, e não que ele seja um objeto físico ou de caráter mitológico.

O ARGUMENTO COSMOLÓGICO raciocina dos efeitos contingentes para a existência da primeira causa, ou do Deus criador. O argumento pode começar da autoconsciência ou da existência do universo físico. [20] Tudo que tem um início — tudo o que vem a ser — é um efeito, e, assim sendo, deve ter uma causa. O universo deve então ter uma causa se teve um início. O universo de fato tem um início, e, portanto, deve ter uma causa. Uma regressão infinita de causas é impossível; logo, deve haver uma causa primeira que não teve começo algum, mas que é necessária e eterna. Tal ser reconhecemos ser Deus. Discutiremos agora as premissas.

Começamos afirmando a autoconsciência ou a existência do universo. É refutar a si mesmo duvidar da própria existência, visto que se deve primeiro existir antes que se possa negar sua própria auto-existência. Quem não existe não pode afirmar a proposição “não existo”. Também, uma pessoa que negue sua própria existência retira-se do debate, logo não oferece ameaça nenhuma ao argumento cosmológico. Uma vez que estabelecemos a proposição “eu existo”, ou “o universo existe”, pode-se iniciar o argumento.

Seres e eventos contingentes não-causados são impossíveis, visto que coisa alguma pode sair do nada. Visto que nada não é coisa alguma, essa não pode produzir nada. Somente um ser que não tenha início algum pode ser não-causado. Nem sequer é possível haver seres e eventos não-causados. Uma causa deve anteceder a um efeito — ao menos logicamente, caso não cronologicamente. Assim, a causa existe antes de seu efeito. Se um ser ou evento já existe, então ele não causa sua própria existência, visto que já existe. Esse ser ou evento deve então, ou ser não-causado, ou produzido por uma causa anterior.

Ainda que uma progressão infinita de causas seja possível, uma regressão infinita não o é. Uma progressão infinita pode ocorrer desde que a causa possa continuar a levar a novos efeitos, e é logicamente possível que tal processo jamais terminará. Entretanto, se temos de pressupor uma regressão infinita de causas, então é impossível a nós alcançarmos o presente, visto que não é possível viajar através de um infinito real.

Assim como é impossível alcançar o fim de uma progressão infinita, nosso presente é um “fim” quando visto do passado. Qualquer momento em particular é um “fim” ou ponto de parada quando visto do passado, de modo que se o passado é infinito, nunca teríamos alcançado o presente; de outro modo, o passado não seria infinito, mas finito.

Por exemplo, se alguém fosse começar a contagem à meia-noite de segunda-feira e decidisse que devesse interrompê-la na sexta-feira, ele atingiria o ponto de parada quando o tempo chegasse. Mas se há tempo infinito entre seus pontos de começo e de parada, então ele nunca atingiria esse último. Da mesma maneira, se um homem corre em direção a uma linha de chegada — um “final” análogo ao nosso presente — ele nunca alcançaria-o se houvesse uma distância infinita entre os pontos inicial e de parada; de outro modo, a distância entre os dois pontos não seria infinita, mas finita.

Logo, uma regressão infinita de causas passadas para o universo é impossível, visto que, se o passado é infinito, nunca teríamos atingido o presente; de outra forma, o passado não seria infinito, mas finito. Por outro lado, se o universo tem um ponto inicial no passado finito, então seria possível chegar ao presente. Porém, se o universo tem um ponto de partida, então deve haver uma causa. Alguns contestam: “Por que essa causa tem que ser Deus?” Essa é uma tola objeção, visto que Deus é apenas o nome ou título da primeira causa. O argumento mostra que deve haver um criador que fez o universo.

Tomás de Aquino (1224-1274) é mais bem conhecido por suas “Cinco Vias” de demonstração da existência de Deus21. Reproduziremos aqui somente a segunda e a terceira de sua Summa Theologica:

"A segunda via é a da natureza da causa eficiente. No mundo do sentido descobrimos que há uma ordem de causas eficientes. Não há nenhum caso conhecido (nem é ele, de fato, possível) em que uma coisa foi achada como sendo a causa eficiente de si mesma, pois assim seria ela anterior a si mesma, o que é impossível. Ora, em causas eficientes não é possível prosseguir até o infinito, porque em todas as causas eficientes seguindo-se em ordem, a primeira é a causa da causa intermediária, e a intermediária é a causa da última causa, sejam várias as causas intermediárias, ou uma apenas. Ora, tirar a causa é tirar o efeito. Por conseguinte, se não há primeira causa alguma entre as causas eficientes, não haverá nenhuma última, nem qualquer causa intermediária. Mas se em causas eficientes é possível prosseguir ao infinito, não haverá nenhuma primeira causa eficiente, nem um efeito final, nem quaisquer causas eficientes
intermediárias; tudo isso é claramente falso. Portanto, é necessário admitir uma primeira causa eficiente, à qual todos dão o nome de Deus.


A terceira via é tomada da possibilidade e necessidade, e se dá assim. Encontramos na natureza coisas que são possíveis que sejam e que não sejam, visto que são achadas para serem geradas, e corromperem-se, e conseqüentemente, são possíveis de serem e de não serem. Mas é impossível
para as tais sempre existirem, pois aquilo que é possível não ser em algum tempo não é. Logo, se tudo é possível de não ser, então em algum tempo não poderia haver nada existindo. Ora, se tal fosse verdade, agora mesmo não haveria nada em existência, porque aquilo que não existe somente começa a existir por alguma coisa já existente. Por conseguinte, se em algum tempo nada esteve em existência, teria sido impossível para alguma coisa ter começado a existir; e,
desse modo, precisamente agora nada estaria em existência — o que é absurdo. Portanto, todos os seres não são meramente possíveis, mas deve haver alguma coisa para a qual a existência seja necessária. Porém, toda coisa necessária ou tem sua necessidade causada por uma outra, ou não. Ora, é impossível prosseguir infinitamente em coisas necessárias que têm sua necessidade causada por uma outra, como já foi provado com respeito às causas eficientes. Logo, não podemos senão postular a existência de algum ser tendo de si mesmo sua própria necessidade, e não a recebendo de outro, mas antes causando em outros suas necessidades. Todos os homens falam disso como sendo Deus." [22]


Alguns tentaram recentemente defender um universo não causado ou eterno baseado na teoria quântica, mas tais argumentos, quando muito, só fazem empurrar a questão um passo para trás, de modo que a existência do universo ainda requer uma explicação, ou uma causa. Nenhum deles prova ser o universo não causado ou eterno, ou que alguma coisa possa sair do nada. Além disso, há fortes discordâncias entre os cientistas quanto às implicações da teoria quântica, e argumentos desse tipo freqüentemente fazem mau uso das especulações científicas.

Alguns tentaram recentemente defender um universo não causado ou eterno baseado na teoria quântica, mas tais argumentos, quando muito, só fazem empurrar a questão um passo para trás, de modo que a existência do universo ainda requer uma explicação, ou uma causa. Nenhum deles prova ser o universo não causado ou eterno, ou que alguma coisa possa sair do nada. Além disso, há fortes discordâncias entre os cientistas quanto às implicações da teoria quântica, e argumentos desse tipo freqüentemente fazem mau uso das especulações científicas.

Se a causa imediata do universo mesmo requer uma causa, então ainda não chegamos à primeira causa. Deve haver uma causa para explicar toda causa que é também um efeito, mas regredir infinitamente é impossível, assim deve haver uma causa primeira não causada que seja eterna, que tenha sempre existido, e que criou o tempo por si mesma. Visto que nenhum efeito pode ser não causado, essa primeira causa não tem começo algum, e desse modo não é um efeito.

Tal argumento é invulnerável à provocação: “Se tudo tem uma causa, então Deus também deve ter uma causa”. Essa típica objeção trai uma falta de atenção, visto que o argumento declara somente que todo efeito, ou tudo que vem a ser, deve ter uma causa. Mas o argumento demonstra que Deus não é um efeito, mas é a primeira causa não causada.

O ARGUMENTO TELEOLÓGICO pode também ser chamado de argumento do projeto. É historicamente associado com o trabalho de William Paley, 23 que argumentava:

"Ao cruzar uma charneca, supondo que eu tropece numa pedra, e fosse perguntado como ela veio a estar ali, eu possivelmente poderia responder, que, por qualquer coisa que eu sei ser o contrário, ela sempre estivesse ali; nem seria, talvez, muito fácil mostrar o absurdo de tal resposta. Mas suponha que eu encontrasse um relógio no chão, e fosse inquirido sobre como ocorreu de o relógio estar naquele lugar: dificilmente deveria eu pensar na reposta dada antes —que, por qualquer coisa que eu sei, o relógio pudesse haver estado sempre ali. Todavia, por que não deveria essa resposta servir tanto para o relógio quanto para a pedra? Por que ela não é admissível no segundo caso e o é no primeiro? Por essa razão, e por nenhuma outra, a saber, que, quando vamos inspecionar o relógio, percebemos (o que não poderíamos descobrir na pedra) que suas várias partes estão planejadas e postas juntamente para um propósito, e.g., que estão assim formadas e ajustadas para produzirem movimento, e que tal movimento está assim regulado para fornecer a hora; que, se as diferentes partes houvessem sido talhadas diferentemente do que elas são, se tivessem um tamanho diferente daquele que têm, ou fossem colocadas de qualquer outra maneira, ou em qualquer outra ordem que não aquela em que estão postas, ou movimento nenhum pode ser levado adiante pela máquina, ou ninguém que tivesse respondido se beneficia então de seu uso... ...a inferência, concluímos, é inevitável, o relógio deve ter tido um fabricante; deve haver existido, em algum tempo, e em algum lugar ou outro, um artífice ou artífices que o construíram com o propósito que descobrimos ser a resposta verdadeira; que compreendeu sua construção, e intentou seu uso...

Toda indicação de invenção, toda manifestação de projeto, que existia no relógio, existe nas obras da natureza; com a diferença, pelo lado da natureza, de ser maior e em maior quantidade, e isso em um grau que excede todo cálculo. Quero dizer que as invenções da natureza ultrapassam as da arte, na complexidade, sutileza, e peculiaridade do mecanismo; e mais ainda: se possível, vão além em número e variedade; todavia, em inúmeros casos, não são menos evidentemente mecânico, não menos evidentemente invenções, não menos evidentemente acomodados aos seus fins, ou adequados ao seu ofício, do que o são as mais perfeitas produções da genialidade humana... [24]

Observações ordinárias e estudos científicos indicam que o universo físico exibe uma intrincada estrutura e uma complexa ordem; apresenta-se a si mesmo como um produto de projeto deliberado. O PRINCÍPIO ANTROPOCÊNTRICO representa a observação que muitos aspectos do universo parecem estar em admirável sintonia para permitir a existência de vida. Se tais fatores tivessem de ser mesmo que ligeiramente diferentes do que são, a vida seria impossível. Um grande número de condições precisas deve estar presente simultaneamente para permitir a existência de vida orgânica.

Visto que o que é projetado requer um projetista, o observado projeto do universo necessita a existência de um projetista. Tal ser exibe as características de uma mente racional, capaz de pensar e planejar, e possui tal poder para executar seus intentos que criou o universo sem matéria preexistente disponível. Essa descrição é consistente com o que a Bíblia ensina acerca de Deus. A magnitude e a complexidade da sua criação demonstram seu poder e sabedoria:

Mas foi Deus quem fez a terra com o seu poder, firmou o mundo com a sua sabedoria e estendeu os céus (Jeremias 10.12)

Eu fiz a terra, os seres humanos e os animais que nela estão, com o meu grande poder e com meu braço estendido, e eu a dou a quem eu quiser. (Jeremias 27.5)

Quantas são as tuas obras, SENHOR! Fizeste todas elas com sabedoria! (Salmo 104.24)

O ARGUMENTO MORAL parte das leis objetivas morais para um doador moral das leis. Immanuel Kant (1724-1804) escreve em sua Critique of Practical Reason: [25]

"Duas coisas enchem a mente com uma sempre nova e crescente admiração e temor reverente, e com cada vez mais freqüência e mais firmeza refletimos nelas: os céus estrelados acima de mim e a lei interna dentro de mim." [26]

Para que as leis morais objetivas tenham sentido deve haver justiça. Visto que observamos que a justiça com freqüência não é realizada nesta vida, deve haver uma vida além onde a justiça exata é feita. Além disso, para haver justiça deve haver um Juiz que fará tal justiça. Mas para esse Juiz julgar retamente, ele deve ser onisciente, conhecendo todo pensamento e ação, e suas várias relações. E para executá-la, deve haver poder ilimitado à disposição dele.

Ora, Kant advogara por um conceito de Deus como um princípio heurístico em ética, e não queria dizer que o argumento servisse como prova no sentido clássico:

"Por um postulado de razão prática pura, entendo uma proposição teórica que não é, enquanto tal, demonstrável, mas que é um corolário inseparável de uma lei incondicionalmente válida a priori."[27]

Entretanto, se alguém negar que haja uma vida além na qual todos se depararão com esse Juiz todo-poderoso e que tudo sabe, ele não pode mais explicar a moralidade objetiva. Todavia, encontramos homens em todo lugar falar e agir como se existisse moralidade objetiva. Mesmo aqueles que verbalmente negam a moralidade objetiva reagem às ações dos outros como se houvesse uma tal coisa. Não se pode declarar consistentemente a moralidade objetiva, seja por palavra ou ação, e rejeitar sua precondição necessária. Escreve Hastings Rashdall:

"A crença em Deus... é a pressuposição lógica de uma Moralidade “objetiva” ou absoluta. Uma idéia moral não pode existir em lugar algum e de nenhum modo senão na mente; uma idéia absoluta pode existir apenas numa Mente da qual toda Realidade seja derivada. Nossa idéia moral pode somente declarar a realidade objetiva até o ponto que possa ser racionalmente considerada como a revelação de um ideal moral eternamente existente na mente de Deus." [28]

Concluindo nossa discussão sobre os argumentos clássicos, procederemos agora ao exame dos argumentos bíblicos, assim chamados devido à sua dependência tanto da estratégia apologética quanto do real conteúdo da Bíblia.

O ARGUMENTO TRANSCENDENTAL, algumas vezes chamado de argumento abdutivo, parte de um conhecido ou reconhecido Y para uma necessária precondição X.
Ou, como Robert Stern explica:

"Como correntemente apresentado, diz-se habitualmente serem os argumentos transcendentais distintos ao envolverem um certo tipo de afirmação, a saber, que “para Y ser possível, X deve ser a questão”, onde Y é algum fato indisputável a respeito de nós e de nossa vida mental (e.g. que temos experiências, usamos linguagem, fazemos certos julgamentos, temos certos conceitos, desempenhamos certas ações etc.), mas exatamente o que é substituído por X, é onde está aberto a debate nesse estágio." [29]

Um aspecto do sistema bíblico de apologética envolve discutir que dado qualquer Y, a pré-condição necessária (X) é a cosmovisão bíblica inteira. Por exemplo, entre outras coisas, a ciência assume a uniformidade da natureza (Y), mas isso exige a cosmovisão bíblica (X); 30 portanto, a cosmovisão bíblica é uma pressuposição necessária que torna possível a ciência. A implicação é que a ciência nunca pode desaprovar a Escritura, ou mesmo argumentar contra ela.

O ensino bíblico gera um tipo particular de argumento transcendental 31 que é irrefutável, visto que no processo de argumentação ele mostra que a cosmovisão bíblica (X) é aplicável para todos e quaisquer Y. Tudo o que é substituído por Y no contexto de debate, a cosmovisão bíblica (X) é sua pré-condição necessária. Isso é verdade mesmo no que diz respeito aos argumentos contra o cristianismo — sem a cosmovisão bíblica como a pressuposição, nenhuma objeção contra ele sequer é inteligível. [32] Porém, uma vez que a Bíblia inteira já esteja reconhecida como verdadeira, nenhuma objeção contra ela pode ser verdadeira.

Isso é um argumento indireto positivo a favor da cosmovisão bíblica. Uma estratégia bíblica de apologética deve empregar ambos os argumentos diretos e indiretos. [33] O que segue, então, é um argumento direto positivo em favor da fé cristã, ao qual chamo de O ARGUMENTO DOGMÁTICO. [34]

A palavra “dogmática” tem algumas conotações mui desfavoráveis na fala coloquial. Um dicionário define “dogmatismo” como “segurança na afirmação de opinião, especialmente quando injustificável ou arrogante; um ponto de vista ou sistema de idéias baseado em premissas insuficientemente examinadas”, e um “dogma” é “um ponto de vista ou doutrina posto como acreditado sem fundamentos adequados”. [35]

Ainda que isso reflita o uso comum, não é o que significa para nós.

“Dogmático” pode simplesmente querer dizer “doutrinário” 36 ou “baseado em princípios apriorísticos, não em indução”. 37 Ambas as definições são aplicáveis em nosso contexto. Os sinônimos de tal palavra incluem, “ditatorial, autoritário, imperioso”, e noutro sentido, “dedutivo, a priori, dedutível, derivável, e provado”. 38 O todo da Escritura cristã é uma revelação de Deus. E visto que Deus fala com autoridade absoluta e “ditatorial”, 39 sua revelação verbal forma a pré-condição de tudo da vida e do pensamento, e qualquer conhecimento somente vem de deduções válidas disso.

Em God and Reason, Ed. L. Miller explica muito bem a posição filosófica do dogmatismo:

"Uma das características da tradição judaico-cristã é sua crença em uma divina auto-revelação: Deus intervém na história humana e fala; ele desvenda a si mesmo em uma “revelação especial”. E o conhecimento de Deus extraído de sua revelação é um exemplo de teologia revelada. Tal teologia é algumas vezes chamada de “dogmática” (no melhor sentido da palavra) ou “confessional”, porque busca elucidar os artigos de fé (dogmas) divinamente concedidos, que toma como seus dados fundamentais e inegociáveis. O teólogo dogmático não é diferente do matemático, pois começa com certas suposições, ainda que em tal caso suposições reveladas; o sistema é limitado pela revelação, é completo e é oferecido como um package deal [grupo de coisas juntamente agrupadas, e que devem ser reunidas sempre dessa forma]." [40]

O sistema cristão admite a infalibilidade bíblica, ou a pressuposição de que “a Bíblia é a palavra de Deus”, como seu primeiro princípio auto-autenticador. Por auto-autenticador, não quero dizer que a Bíblia verifica-se em nossa experiência (ainda que tal ocorra), visto que se fosse por nossa experiência que ela prova ser verdadeira, não seria autoautenticadora. Nem estou me referindo ao testemunho interno do Espírito Santo da veracidade bíblica, ainda que tal se suceda naqueles escolhidos de Deus para a salvação. Antes, quero dizer que o conteúdo da Bíblia verifica-se por si mesmo; não precisa apelar a quaisquer premissas externas para si.

Desse primeiro princípio de infalibilidade bíblica, o restante do sistema segue por necessidade mediante deduções válidas. Visto que o primeiro princípio verifica-se por si mesmo como sendo verdadeiro, quaisquer pressuposições validamente deduzidas dele são também verdadeiras. Visto que a revelação bíblica condena todos os outros sistemas de pensamento, e tudo o que ela diz é verdadeiro, a fé cristã é, pois, o único sistema verdadeiro de pensamento, pelo qual toda proposição é avaliada e tornada inteligível.

O método é similar ao racionalismo. Ainda que seu uso tenaz da dedução seja recomendável, o racionalismo não-cristão falha porque seus princípios são arbitrários e injustificados. Por outro lado, a Bíblia traz o conteúdo para justificar a si própria como o infalível princípio da fé cristã. Mas dogmatismo talvez seja o melhor nome, 41 visto que traz a idéia de que a cosmovisão bíblica consiste de, nas palavras de Miller, suposições reveladas completas oferecidas de modo tal que todas têm de estar reunidas da mesma forma [‘package deal’].

Todos têm uma cosmovisão — uma rede de proposições inter-relacionadas, a soma das quais compõe “uma concepção ou apreensão completa do mundo”. 42 Há um ponto de partida ou princípio primeiro a toda cosmovisão do qual o resto do sistema é derivado. Não é possível para uma cosmovisão ser uma teia de proposições que dependam de uma outra sem um princípio primeiro, visto que mesmo uma tal concepção de uma cosmovisão requer uma justificação epistemológica. Há ainda algumas crenças que são mais centrais à rede, a quebra da qual destrói as pressuposições mais distantes do centro. Até as mais centrais alegações requerem justificação, e uma cosmovisão na qual as pressuposições dependam de uma outra de uma maneira que falte um princípio primeiro ou autoridade definitiva é exposto como não tendo justificação em absoluto.

Logo, toda cosmovisão exige um princípio primeiro ou autoridade definitiva. Sendo primeiro ou definitivo, um tal princípio não pode ser justificado por qualquer autoridade anterior ou maior; de outra forma, não seria o primeiro ou definitivo. O princípio primeiro deve então possuir o conteúdo para justificar a si próprio. Por exemplo, a proposição “todo conhecimento vem da experiência sensorial”, falha em ser o princípio primeiro no qual uma cosmovisão possa ser construída, visto que se todo conhecimento vem da experiência sensorial, esse princípio proposto deve também ser conhecido somente pela experiência sensorial, mas antes de fornecer o princípio, a confiabilidade da experiência sensorial não estava ainda estabelecida. Desse modo, o princípio resulta em um círculo vicioso, e se auto-destrói. Não importa o que possa ser validamente deduzido de um tal princípio — se o sistema não pode sequer se iniciar, o que se segue do princípio não pode ser aceito.

Uma cosmovisão que comece com uma contradição é impossível, e deve ser rejeitada. Isso porque contradições são ininteligíveis e sem significado. A lei de contradição 43 afirma que “A não é não-A”, ou que algo não pode ser verdadeiro e não verdadeiro ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Uma negação dessa lei deve a si mesma empregá-la para ter significado. Se a verdade pode ser contraditória, então a verdade não pode ser contraditória, cães são gatos, elefantes são ratos, e “veja Jean correr” quer dizer “eu sou casado”. Se não é verdadeiro que “A não é não-A”, nada é inteligível.

Visto que nenhum legítimo princípio primeiro pode contradizer a si mesmo, o ceticismo epistemológico, sendo contraditório, deve ser rejeitado. Um cético filosófico sustenta que “nenhum conhecimento é possível... ou que não há evidência suficiente ou adequada para se dizer que qualquer conhecimento seja possível”. [44] Ou ele declara saber que nada pode ser conhecido, ou que há inadequada evidência para se saber qualquer coisa. Ambas as opções declaram e negam o conhecimento absoluto ao mesmo tempo, e, por conseguinte, são autocontraditórias.

Princípios primeiros autocontraditórios são insustentáveis, e o ceticismo é autocontraditório. Isso significa que um princípio primeiro adequado deve garantir a possibilidade de conhecimento. Além disso, tal princípio deve fornecer uma quantia adequada de conhecimento, e não meramente tornar possível o conhecimento. Mesmo se “meu nome é Vincent” for uma afirmação verdadeira, não me dá isso qualquer informação sobre a origem do universo, ou que roubar seja imoral. Sequer define moralidade. Mas como sei que a proposição é verdadeira em primeiro lugar? Ela não tem uma epistemologia completa e que justifique a si mesma em seu conteúdo. Um princípio que falhe ao fornecer informação concernente a categorias necessárias de pensamento tais como epistemologia, metafísica e ética é, portanto, inadequado.

Um princípio primeiro não pode ser baseado em indução, a qual raciocina dos particular para o universal. [45] Quantidade alguma de investigação empírica pode me dizer, por exemplo, que “cada ser humano tem um cérebro”. Para estabelecer uma proposição geral como essa, devo examinar cada ser humano. E ao examinar seres humanos em uma parte do mundo, devo de alguma forma garantir que a natureza do homem não tenha mudado naquelas partes do mundo cujos seres humanos já tenha estudado. Se pretendo aplicar a afirmação a todos os seres humanos no passado e no futuro, devo também examinar todos os seres humanos no passado e no futuro. Visto ser tal impossível, o raciocínio indutivo e os métodos empíricos não podem justificar a proposição.

Baseando-se nos métodos empíricos, seria impossível definir um ser humano no primeiro lugar, visto que tal conceito é também um universal. Problemas similares são inerentes ao estabelecer uma proposição como “todos os homens são mortais”. Alguns procuram salvar a indução dizendo que, ainda que não se possa conclusivamente estabelecer qualquer proposição, pelo menos pode estabelecer uma alegação como provável. Entretanto, se probabilidade é “a razão do número de resultados num conjunto exaustivo de resultados igualmente prováveis que produzem um dado evento pelo número total de resultados possíveis”, [46] mesmo que admitamos que métodos empíricos possam descobrir o numerador da fração — ainda que eu negue mesmo isso ao empirismo —, determinar o denominador requer conhecimento de um universal, e onisciência é exigida para estabelecê-lo em muitos casos. Visto que métodos empíricos não podem conhecer universais, dizer que pode isso chegar ao conhecimento provável é contra-senso.

A indução é sempre uma falácia formal, e um sistema baseado em um princípio empírico não pode lograr sucesso. A dedução, por outro lado, produz conclusões que estão garantidas serem verdadeiras se também o forem as premissas, e se o processo de raciocínio for válido. O racionalismo emprega a dedução, e como tal é superior aos métodos empíricos. Os sistemas racionalísticos parecem ser menos populares, mas assinalaremos algumas de suas dificuldades antes de continuarmos. O racionalismo seleciona um princípio primeiro e dele deduz o resto do sistema, de maneira mui semelhante à de alguém que começa com um ou mais axiomas em geometria. Se o princípio primeiro é verdadeiro, e o processo de raciocínio dedutivo é válido, as proposições subsidiárias, ou teoremas, seriam todos verdadeiros por necessidade. O problema com o racionalismo não-revelacional é como alguém pode selecionar um princípio primeiro. 47 Ora, se o axioma selecionado é autocontraditório, então, naturalmente, é rejeitado. Mas supondo que um princípio não-contraditório seja selecionado, ele ainda deve justificar a si próprio.
Somente o princípio primeiro cristão é auto-justificador, mas, mesmo se assumimos que vários princípios auto-consistentes e auto-justificadores existam, devem eles ser extensos o bastante para transmitir conhecimento possível. Assim, postular “meu nome é Vincent” como princípio primeiro em uma cosmovisão dedutiva resultaria no fracasso mencionado anteriormente. Finalmente, há várias escolas de sistemas racionalistas, e seus pontos de partida são diferentes e incompatíveis. Qual é o correto? Uma cosmovisão racionalista com um princípio primeiro arbitrário não pode lograr êxito. Ainda que o resultado não seja nada melhor, o método em si ainda é superior ao procedimento indutivo.

Nesse ponto, todos os sistemas não-cristãos já fracassaram, incluindo a alegada revelação do Islã. [48] Não podem satisfazer a todos os requerimentos assim longamente listados. Contudo, por motivo de completitude, devemos também mencionar que as proposições dentro de uma cosmovisão não podem contradizer uma a outra. Um princípio primeiro não deve produzir uma proposição em política que contradiga outra proposição em ética. Creio que não há necessidade alguma de citar de novo o problema com as contradições.

A atual estratégia apologética começa com o reconhecimento de que o cristianismo é o único sistema dedutivo com um princípio primeiro auto-consistente e auto-justificador revelado por um ser onisciente todo-poderoso. O princípio é amplo o bastante para fornecer um número adequado de proposições suficientes para construir uma cosmovisão completa que não ocasiona auto-contradição nenhuma. Portanto, a cosmovisão bíblica é a pré-condição de inteligibilidade, conhecimento e verdade. Todos os outros sistemas de pensamento não podem tornar possível o conhecimento e, desse modo, descambam para o ceticismo filosófico. Mas visto que o ceticismo é autocontraditório, não se pode permanecer em uma tal posição, e o cristianismo é o único caminho para fora do abismo epistemológico.[49]

O que os argumentos clássicos em prol da existência de Deus não fazem é fornecer prova positiva de toda a cosmovisão bíblica. Cada um somente se põe a favor da veracidade de várias proposições bíblicas, tais como Deus como o criador, como o projetista, ou como o doador das leis morais. Não obstante, o argumento dogmático simultaneamente prova todas as proposições bíblicas e todas as suas implicações lógicas. Se a Bíblia inteira é verdadeira, então naturalmente o Deus bíblico existe, e qualquer outro conceito sobre ele está automaticamente excluído.

Um defeito objetivo mais sério dos argumentos teístas clássicos é sua dependência da ciência e do empirismo[50]. Se a ciência e o empirismo são fatalmente defeituosos como meios para se descobrir a natureza da realidade, qualquer argumento que se fie neles falha antes mesmo de começar, ainda que no caso dos argumentos teístas, pareçamos chegar à conclusão apropriada. Ou seja, a ciência pode afirmar a existência de Deus, mas rejeito a confiabilidade dela mesmo que eu também afirme isso.

Contudo, os argumentos teístas permanecem úteis como tipo de argumentos ad hominem, [51] onde alguém emprega premissas assumidas por um incrédulo, e a partir delas raciocina, ou rumo a conclusões absurdas, demonstrando assim a falsidade as premissas do incrédulo, ou concluindo favoravelmente ao crente, como no caso da existência de Deus[52]. Os argumentos teístas são capazes de mostrar a superioridade racional e a exclusividade da fé cristã mesmo quando se assume a falsa premissa que métodos científicos e empíricos sejam confiáveis, ou possam descobrir a verdade [53]. Ainda que eles não se apóiem numa fundação infalível, são úteis como parte da apologética que derrota o incrédulo em seu próprio território. Entretanto, um argumento infalível a favor do cristianismo, ou por tal matéria qualquer argumento infalível, requer a infalível revelação de Deus como ponto de partida. [54]

Provérbios 26.4,5 ensina dois princípios de argumentação que ajudam a resumir a estratégia bíblica de apologética:

1. Não respondas ao tolo segundo a sua estultícia, para que também não te faças semelhante a ele.
2. Responde ao tolo segundo a sua estultícia, para que ele não seja sábio aos seus próprios olhos.

O tolo acredita na ciência e no empirismo. 55 Pensa que sua mente finita e sua metodologia defeituosa podem descobrir a verdade acerca da realidade, que não precisa de revelação divina alguma, e que pode alcançar o conhecimento através de investigação autônoma e raciocínio. O versículo 4 alerta ao crente para não argumentar como o tolo, a fim de evitar tornar-se como ele. Da infalível fundação da revelação verbal divina, podemos deduzir um infalível e completo sistema de verdade e conhecimento. Isso é o aspecto positivo da estratégia bíblica de apologética, e consiste tanto de argumentos diretos quanto indiretos, tanto raciocínio dedutivo quanto abdutivo. [56]

Contudo, sem tornar-se como o tolo em nosso pensar, podemos temporariamente assumir as premissas que ele apóia, meramente por causa do argumento, para dizer aonde elas levam. [57] Podemos contender que é tolice confiar na ciência como meio para se descobrir a verdade acerca da realidade, mas então podemos também mostrar que as descobertas científicas favorecem a fé cristã mais do que qualquer outra cosmovisão, e ao mesmo tempo impõe prejuízos aos valores e crenças seculares. Podemos formular argumentos históricos contra nosso oponente, sabendo que seu método de investigação histórica evita qualquer conhecimento de história em primeiro lugar. [58] Esse é o aspecto negativo da estratégia bíblica de apologética, e freqüentemente inclui argumentos que utilizam premissas científicas e empíricas.

Tal estratégia dual de argumentação trabalha contra todos os sistemas de pensamento não-cristãos, incluindo religiões não-bíblicas. 59 Visto que a Bíblia é verdadeira, e visto que condena todas as outras religiões, então todas as religiões não-bíblicas são declaradas como sendo falsas pela mesma infalível autoridade de Deus que declara ser verdadeira a Bíblia. Qualquer um que desafie isso deve refutar a Bíblia, naquele ponto em que o crente pode empregar o argumento dogmático e o argumento transcendental para defender sua fé e continuar demolindo a posição de seu oponente.

Podemos demonstrar ser a religião de nosso oponente auto-contraditória, e que alguns dos valores éticos que ela entesoura podem somente ser explicados pela cosmovisão bíblica. Por exemplo, a ética do budismo carece de qualquer fundamento autorizado; é arbitrário. E se a religião oposta atesta o método secular de investigação histórica, podemos então usar suas descobertas para expor os erros históricos de suas doutrinas, tal como acontece com o Alcorão e o Livro de Mórmon.

Dessa maneira, o apologista cristão habilmente emprega tanto argumentação positiva quanto negativa para defender sua fé, enquanto confunde e refuta seu oponente. Como escreve o apóstolo Paulo:

"As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo." (2 Coríntios 10.4-5).

Pedro aconselha seus leitores: “Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês” (1 Pedro 3.15). E Judas diz: “senti que era necessário escrever-lhes insistindo que batalhassem pela fé de uma vez por todas confiada aos santos”. É o dever de todo cristão defender sua fé e destruir as crenças de seus oponentes. A estratégia bíblica elucidada acima, com o argumento dogmático como seu impulso central, equipa o crente a “destruir argumentos” e “levar cativo todo pensamento” mesmo quando confrontando os inimigos mais ardilosos e
hostis da fé bíblica.

Como devemos considerar o não-cristão? O Salmo 14.1 declara: “Diz o tolo em seu coração: ‘Deus não existe’”. Ora, a Bíblia não chamaria de tolo quem rejeita Zeus, Alá ou Buda por serem falsos deuses, visto cuidar ela apenas do Deus que revela. Portanto, o insensato do Salmo 14 não é apenas alguém que rejeita qualquer divindade, mas alguém que rejeita o Deus revelado na Escritura — ou seja, o Deus bíblico ou cristão. E visto haver somente um Deus cristão, o Salmo 14 não está chamando apenas o ateu de tolo, mas qualquer um que rejeite o cristianismo, mesmo que possa pertencer a uma outra religião.

Romanos 1.22-25 confirma isso: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis... Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador...” Assim, a Bíblia chama louco a qualquer não-cristão, seja ateu, agnóstico, budista ou muçulmano. O Salmo 53.2 faz supor que qualquer que não busque a Deus 60 não tem entendimento: “Do Céu olha Deus para os filhos dos homens, para ver se alguém que entenda, se há quem busque a Deus”. O versículo 4 diz que os “obreiros da iniqüidade” “não tem conhecimento” (ERC).

Por outro lado, a Escritura afirma que “o temor do SENHOR é o princípio da sabedoria; todos os que cumprem os seus preceitos revelam bom senso” (Salmo 111.10). Provérbios 9.10 diz: “O temor do SENHOR é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é entendimento”. Visto ser o temor do Senhor o princípio da sabedoria, e a Bíblia reconhecer somente o Deus bíblico ou cristão, a implicação é que os não-cristãos nem mesmo começaram a ganhar sabedoria. Não é que eles tenham somente uma sabedoria pequena, mas que nem mesmo começaram a ter qualquer sabedoria que seja.

Além disso, a Bíblia diz que é devido à sua “impiedade” que os homens “suprimem a verdade” (Romanos 1.18) concernente à existência e natureza de Deus “pela injustiça”, mesmo que lhes tenha sido dada uma revelação inescapável acerca de si mesmo através do conhecimento inato de suas mentes e das palavras da Escritura. Paulo comenta que tais indivíduos “não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (Romanos 1.21,22).

Desse modo, a avaliação bíblica de todos os não-cristãos é que são tanto tolos quanto perversos. Todo não-cristão é moral e intelectualmente defeituoso; é contra as Escrituras considerar qualquer um deles como inteligente ou moral. Eles demonstram sua falta de aptidão intelectual ao fracassarem em assentir à fé cristã, e assentir a ela em toda a sua inteireza. E negando o cristianismo, a despeito do conhecimento inato que Deus coloca em suas mentes e dos argumentos irrefutáveis da apologética bíblica, demonstram a si próprios serem não só avestruzes intelectuais, mas também supressores da verdade acerca de Deus. Isso é imoralidade da pior espécie. Paulo escreve: “A ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça” (Romanos 1.18).

Nós que agora somos cristãos éramos em algum tempo também “separados de Deus e...inimigos no entendimento” (Colossenses 1.21), mas Deus nos reconciliou consigo através de Cristo (v. 22). Mas os não-cristãos estão “sem Cristo... sem esperança e sem Deus no mundo” (Efésios 2.12). Paulo escreve que “o deus desta era cegou o entendimento dos descrentes, para que não vejam a luz do evangelho” (2 Coríntios 4.4), e a pregação do evangelho é para “para abrir os olhos e convertê-los das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus, a fim de que recebam o perdão dos pecados e herança entre os que são santificados pela fé” (Atos 26.18).

Ainda que a Bíblia descreva os incrédulos como vivendo em um estado lamentável de existência, nós que cremos estávamos também em uma tal condição. Se deixados a nós mesmos, teríamos permanecido em ignorância e trevas. É pela eleição divina e por ouvir o evangelho que fomos iluminados para a verdade, e levados à fé em Cristo. Portanto, ao dizer que os incrédulos são néscios, não queremos dizer que aqueles que agora são cristãos sempre foram sábios e iluminados, mas é apenas pela soberana escolha de Deus que fomos salvos de um estado de estupidez e futilidade. Não somos cristãos porque somos sábios, mas fomos feitos sábios porque Deus nos escolheu para sermos cristãos. Sabendo disso, os cristãos não devem ser arrogantes, mas gratos a Deus por sua salvação.

Entretanto, a Bíblia caracteriza ainda todos os descrentes como tolos e perversos. Os cristãos ficam assim obrigados a verem os não cristãos como intelectual e moralmente inferiores. Alguns podem pensar que isso é uma avaliação excessivamente indelicada. Isso pode ser verdadeiro do ponto de vista dos incrédulos, mas os cristãos não devem pensar como eles. Visto que a Bíblia ensina que esses são tolos e perversos, e que ser cristão é crer em toda a Bíblia, então ser um cristão é também crer que todos os incrédulos são tolos e perversos. Portanto, sem reservas, devemos dizer com Anselmo: “Por que então ‘disse o Néscio em seu coração: Não há Deus’... senão porque era estúpido e tolo?”

Notas de rodapé:

17 Visto que Deus controla cada detalhe de sua criação, mesmo aqueles que negam sua existência pensam e agem somente como Deus quer, e nesse sentido eles “servem” aos propósitos dele. Entretanto, taisindivíduos não se apercebem de que estão sob o controle divino, e assim vêem-se a si mesmos comoautônomos. Seus pensamentos e ações, todos decretados por Deus, levam à perdição, não à salvação.

18 Alvin Platininga é um proponente recente de uma versão do argumento ontológico.

19 Anselm of Canterbury: The Major Works (Oxford World’s Classics); Oxford University Press, 1998; p.87-89. As divisões de parágrafos e de pontuação foram modificadas por questão de legibilidade.

20 Começar pela autoconsciência é começar com a proposição, “eu existo”.

21 Modernos proponentes dos argumentos cosmológicos incluem Norman Geisler e William Lane Craig.

22 Tomás de Aquino, Summa Theologica; P. 1, Q. 2, A. 3. Tradução original feita pelos Pais da Província Dominicana Inglesa.

23 Modernos proponentes do projeto incluem Michael Behe e William Dembski.

24 William Paley, Natural Theology (1802), como citado em The Existence of God, editado por John Hick;Nova Iorque: Macmillan Publishing Company, 1964; pp. 99-103. Divisões de parágrafo e pontuaçãomodificados por razões de legibilidade.

25 Em época mais recente, o esforço de Kant foi imitado por C.S. Lewis, embora com uma agenda eformulação diferentes.

26 Immanuel Kant, Critique of Practical Reason; Nova Iorque: Macmillan, 1956; p. 166.

27 Ibid., 127.

28 Hastings Rashdall, The Theory of Good andE vil; Oxford, England: Clarendon Press, 1907; II, p. 212.

29 Robert Stern, Transcendental Arguments and Scepticism; Nova Iorque: Oxford University Press, Inc., 2000; p. 6.

30 Discuto essa premissa noutra parte. Aqui estou interessado apenas em explicar a natureza e o uso daestratégia bíblica de apologética.

31 Vide Ultimate Questions, de Vincent Cheung.

32 Vide The Light of OurMinds, in: “The Problem of Evil”, de Vincent Cheung.

33 Para exemplos e explanações de ambos os tipos, vide Ultimate Questions e The Light of Our Minds, deVincent Cheung .

34 Alternativamente, podemos chamá-lo de “O Argumento Pressuposicional” ou “O ArgumentoRevelacional”.

35 Merriam-Webster’s Collegiate Dictionary, Tenth Edition; Springfield, Massachusetts: Merriam-Webster, Inc., 2001.

36 Webster’s New World College Dictionary, Fourth Edition; IDG Books Worldwide, Inc., 2000.

37 The Oxford American Dictionary of Current English; Nova Iorque: Oxford University Press, 1999.

38 Merriam-Webster’s Collegiate Thesaurus. O termo “teologia dogmática” é o equivalente geral de“teologia sistemática” no emprego teológico.

39 Enquanto “impondo sua própria vontade ou opiniões sobre outros”; Merriam-Webster’s CollegiateDictionary.40 Ed. L. Miller, God and Reason, Second Edition; Nova Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1972, 1995; p. 9.

41 Alternativamente, podemos chamar o método de “racionalismo bíblico”, “fundacionalismo bíblico”, ou “pressuposicionalismo”.

42 Merriam-Webster’s Collegiate Dictionary, Tenth Edition; Springfield, Massachussets: Merriam-Webster, Incorporated, 2001; “weltanschauung”. The Cambridge Dictionary of Philosophy, SecondEdition: “Uma cosmovisão constitui uma perspectiva global sobre a vida que resume o que sabemosacerca do mundo...”; Nova Iorque: Cambridge University Press, 2001; “Wilhelm Dilthey”, p. 236.

43 Ou, a lei da não contradição.

44 The Cambridge Dictionary of Philosophy, “Skeptics”, p. 850.

45 Indução é sempre falácia formal, visto que fornece conclusões que dizem mais do que as premissaspermitem.

46 Merriam-Webster’s Collegiate Dictionary, Tenth Edition; “probability”.

47 Como Miller diz, o matemático (e também o racionalista) começa com certas suposições, mas o teólogo dogmático começa com certas suposições, mas o teólogo dogmático começa com suposições reveladas—isto é, informação fornecida por um Deus onisciente.

48 Um sistema pode alegar ser uma revelação divina, mas pode sobreviver ao escrutínio? Além das autocontraditórias alegações do Islã, o Alcorão em alguns pontos reconhece a Bíblia cristã, mas então a contradiz, e assim a religião inteira se auto-destrói.

49 Ultimate Questions, de Vincent Cheung.

50 Mas isso pode não ser um defeito do ponto de vista do incrédulo, e essa é a razão de os argumentosclássicos serem capazes de virar as pressuposições dessa pessoa, erradas que são, contra sua própriaposição. Isto é, mesmo que assumamos as falsas premissas de nosso oponente, ele ainda está enganado, e o cristianismo ainda fica sustentado.

51 Isso não é a falácia do irrelevante ataque pessoal, mas um caso onde as premissas do oponente voltam-se contra sua própria posição.

52 Também, a confiabilidade histórica da Bíblia, a ressurreição de Cristo, ou a superioridade da ética bíblica.

53 Visto que a ciência está constantemente mudando, talvez as modernas versões dos argumentos clássicos sejam mais úteis contra oponentes contemporâneos, ao passo que o argumento dogmático não requer revisão alguma. É freqüentemente dito que a ciência é progressiva e que continuará a progredir. Isso é uma tácita admissão que ela nunca esteve certa e que nunca o estará. A Bíblia é correta em tudo o que afirma visto que foi escrita primeiro; nenhuma mudança ou “progresso” é necessária em seu conteúdo.

54 Por revelação, refiro-me somente às palavras da Escritura, e não às intuições carismáticas, visões,sonhos e profecias— que têm suas próprias dificuldades epistemológicas e não são infalíveis.

55 Somente uso ciência e empirismo para representar a fonte de informação do incrédulo, visto que os homens modernos estão a seu favor. Outros métodos de descobrimento da verdade, como o racionalismo não-cristão ou textos religiosos não-bíblicos, são igualmente vulneráveis aos nossos argumentos.

56 O argumento transcendental é um argumento indireto a favor da necessidade do que o argumento dogmático demonstra diretamente.

57 Como Paulo diz, “falo como insensato” (2 Coríntios 11.21).

58 A única fonte infalível de conhecimento histórico é a revelação bíblica, e nosso conhecimento dehistória é limitado ao que ela revela. Conhecimento secular em qualquer área nunca pode elevar-se acimado status de conjectura não-justificada.

59 Isso não traz dificuldade alguma à estratégia bíblica de apologética, seja a posição do oponente ateísmo,agnosticismo, comunismo, niilismo, budismo, mormonismo, islamismo, seja algum outro sistema depensamento. O método de argumentação é o mesmo, apenas com leves modificações para direcionar osargumentos contra o pensamento do oponente imediato.

60 Isto é, novamente o Deus cristão —o único Deus que a revelação bíblica reconhece.

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